Primeira fase de venda de imóveis tem adesão baixa, enquanto projeção de prejuízo de R$ 9,1 bilhões para 2026 reacende alerta sobre a sustentabilidade da estatal e reabre o debate sobre a privatização.
A tentativa dos Correios de fazer caixa rápido esbarrou na frieza do mercado imobiliário. O primeiro leilão de imóveis do plano de socorro da empresa pública, realizado na segunda semana de fevereiro de 2026, terminou com um resultado aquém da expectava: dos 12 imóveis ofertados, três foram arrematados. O balde de água fria ocorre no exato momento em que a empresa divulga projeções de novo déficit para os próximos anos.
A urgência em vender patrimônio não é à toa. Os números divulgados pela Direção da empresa revelam um cenário financeiro ruim. A estatal estima fechar o balanço de 2025 com um prejuízo de R$ 5,8 bilhões. Para 2026, a projeção é ainda mais sombria, apontando para um rombo recorde de R$ 9,1 bilhões.
Para tentar ganhar fôlego, a empresa apostou na desmobilização de ativos. O leilão incluiu desde prédios comerciais até unidades operacionais, com lances iniciais que partiam de valores baixos, como R$ 19 mil por terrenos menores. Apesar das condições facilitadas, o mercado absorveu apenas 25% da oferta inicial. Analistas apontam que a localização de algumas propriedades e a necessidade de reformas estruturais pesadas afastaram os investidores.
O retorno do fantasma da privatização
Diante do resultado da arrecadação imobiliária do leilão, o clima de apreensão tomou conta dos trabalhadores. Sindicatos, como o Sintect-SP, já soaram o alarme: o sucateamento e a inviabilidade financeira são os ingredientes clássicos que antecedem a venda de uma estatal.
Para as entidades representativas, a privatização “ainda é um perigo” real e iminente. O argumento delas é o de que a gestão atual estaria falhando em apresentar um plano de negócios de crescimento focado na captura de mercado (encomendas), limitando-se a medidas paliativas de corte (PDV) e venda de patrimônio, o que enfraquece a função social da empresa e pavimenta o caminho para a entrega ao capital privado.
Perspectivas de sustentabilidade
A sustentabilidade dos Correios hoje depende de uma virada de chave radical. Especialistas em logística avaliam que a estatal precisa ir além da austeridade. As perspectivas de sobrevivência passam obrigatoriamente por:
- revisão do modelo de negócios: focar agressivamente na logística de e-commerce e na entrega de produtos de maior valor agregado (como a linha branca).
- Modernização tecnológica: automatizar centros de triagem para reduzir custos operacionais.
- Pacto com os trabalhadores: engajar a força de trabalho para melhorar a qualidade do serviço, evitando greves que afastam grandes clientes corporativos.
Sem um choque de eficiência operacional e comercial, os próximos leilões de imóveis servirão apenas para adiar o inevitável, prolongando a agonia de uma das empresas mais antigas e essenciais do Brasil.
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